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Decifra-me ou te devoro

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12/03/2026

Renan Botelho, Mestre Cruel

Mr Fetiche Brasil 2025

Encenador, Performer, Produtor de Conteúdo e Empresário

Olá queridos, fui convidado pelo pessoal do Masculicidade para escrever esse ensaio através de uma provocação “Como o fetiche surgiu na sua vida e como seu lado kinky está presente no seu cotidiano?”

 

E eu achei o máximo poder falar disso por aqui, pois, depois que ganhei o Mr. Fetiche Brasil 2025, muitas pessoas vieram me perguntar sobre como esse “lado” afeta meu “lado baunilha”, e a bem verdade é que o ponto de não retorno foi claramente um processo de auto conhecimento e, por consequência, de aceitação própria.

 

O Fetiche começa na minha vida de uma forma muito parecida com outras pessoas da minha geração (anos 2000), fui um adolescente com acesso e liberdade para usar a internet, numa época em que pouca gente sabia o que era isso. Se hoje meus pais acreditam em fake news da extrema-direita, naquela época eles nem usavam a internet direito.

 

Como todo adolescente da minha geração, encontrei com muita facilidade um vasto mundo de pornografia de vários tipos, e em determinado momento, eu comecei a ter muito tesão em vídeos onde homens negros com paus gigantesco, fodiam sem dó mulheres loiras peitudas. Notei que esses vídeos onde havia uma pegada de dor, choro, sempre me excitava muito mais.

 

Descobri um blog chamado “fora do convencional”, onde tinham inúmeros vídeos que, só muito tempo depois, fui descobrir ser Fetichismo, os vídeos das loiras, passaram para vídeos do “It’s gonna hurt”, que era a mesma pegada, só que gay.

Até que um dia no fora do convencional, eu vi meu primeiro vídeo de spank, e puta que pariu, como foi gostoso gozar com aquilo.

 

Com isso comecei a consumir mais, a saber os termos, eu sempre fui uma pessoas extremamente estudiosa e curiosa. Ainda assim, mantinha isso sempre muito escondido, nem mesmo quando fiz 18 anos trouxe isso a público.

 

Em 2011 eu vivi um relacionamento abusivo dentro do meio, tive um parceiro que era meu namorado, e em questões de sexo, jogavamos ele como sub. Sempre tive muitas questões com meu peso, a luta contra a balança é algo que me persegue desde os meus 11/12 anos e ele era um feeder, mesmo sem eu saber o que era isso. Toda vez que eu tentava emagrecer, ele agia de modo a me fazer engordar. Com isso, eu desisti de ser fetichista e conheci um tempo depois o meu marido.

Porém o som do chicote fazia falta e abrimos a relação para que eu pudesse praticar com outras pessoas, uma vez que ele não curte.

 

Isso tudo comigo paralelamente em terapia, entendendo que a dominação pra mim é um mecanismo de controle da ansiedade, e que não era errado eu ter esses desejos, e querer viver essas coisas.

 

Isso foi fundamental para tirar meu “lado” fetichista de um lugar sombrio, e abraça-lo como parte de uma totalidade, parafraseando o Edgar Morin, sou 100% fetichista e 100% baunilha. Minha vida não pode ser dividida, ela pode e até deve ser protegida.

 

Entender essas coisas em terapia foi fundamental para que eu pudesse viver minha vida como ela deve ser (até esse momento). Assumir meu lado 100% fetichista, criou pontes que me rendem conexões por inteiro. É claro, existem alguns lugares em que eu devo me proteger, mas isso é um instinto de sobrevivência, meus pais não são pessoas que quero compartilhar esse meu traço, mas em igual medida, eu tenho a tranquilidade e o conhecimento para saber que, tal como no BDSM, um dia vai dar merda e isso vai explodir. Mas até lá, tenho no meu marido, nos meus subs, nos meus amigos, no meu trabalho com meu grupo de teatro e até mesmo nos lugares em que dou aula, quem eu sou. E aqueles que não querem conviver com um fetichista, produtor de conteúdo, Mr Fetiche. É uma escolha deles.

Compreender que somos um pacote completo, que quem nos quer por perto tem que querer o bom e o mau, o certo e o errado, o sublime e o grotesco.

 

Hoje sou muito mais seguro para saber que quem anda comigo, o faz por me conhecer por inteiro, quer dizer, o inteiro que eu mesmo conheço, afinal de contas sempre evoluímos.

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