Brutus:
o orgasmo em ser quem é


02/01/2026
Por Igor Duarte [1]
[1] Graduado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais, homossexual, Switcher, descobriu-se Kinky ainda na adolescência e passa a participar da cultura em seus 18 anos. Iniciou dentro do meio pet, mas atualmente explora diversas práticas. Experimentar e disrupção são palavras que definem sua trajetória de vida, pois entende que o mundo só se movimenta a partir da contradição.
A cotidianidade pode ser lida como algo enclausurador. Dado o fato de estarmos sempre em movimentação em busca de um certo acúmulo de capital ou simplesmente sobrevivência, é comum reservarmos pouco tempo aos nossos prazeres íntimos. Para muitas pessoas, o erótico e sexual é concebido como alívio do estresse rotineiro, em possível negação destes como meio para estabelecer relações de comunhão entre corpos e como ferramenta para expressão de um eu enjaulado pelo moralismo.
Ademais, é importante salientar que a esfera do desejo é instrumentalizada como um mecanismo, um meio, de se operar o poder. Reflexão que será discutida por Michel Foucault ao longo dos volumes de sua História da Sexualidade, onde a sexualidade humana torna-se um dispositivo de poder, ou seja, algo a ser controlado, uma máquina de controle e normatizações. Estabelece-se saberes, concepções e verdades sobre a sexualidade e o desejo, resultando no sexo “normal” e “adequado”. Porém, para esta adequação ocorrer, foi preciso que houvesse um sistema de punições àqueles que fugissem à norma. Estas, podem ser acometidas em duas ordens — como reflete Foucault em Vigiar e Punir — do corpo e da alma. A primeira diz respeito às punições físicas, as violências que são infligidas contra a materialidade do corpo. A segunda trata-se daquelas que ocorrem no campo da psiquê, dos sentimentos e ideias. Ambas ocorrem em consonância a discursos — consequentemente, saberes — que trazem embutidos em si interpretações de uma determinada “verdade”.
Vejamos, se nasce uma pessoa com pênis, à ela é atribuído o gênero masculino. Com isso, o modo como ele irá se relacionar com outras pessoas em seu futuro já é algo estimado e concebido, neste caso, espera-se a relação com mulheres e o sexo com funcionalidade reprodutiva. Porém, quando ele cresce, se vir a consciência de desejar relacionar-se com outros homens, ele estará fugindo da verdade do que é ser homem, logo, será possível que enfrente punições ao longo de sua vida. Além disso, se ele entender-se como kinky, há ruptura de uma outra norma, pois seu erotismo será explorado de formas variadas e desassociadas da ideia reprodutiva. É o prazer de sentir prazer. E da ruptura à abertura de uma potencial violência. Afinal, qual é a pessoa kinky que nunca sentiu vergonha ou um certo peso ao refletir sobre nossas fantasias?
Nós kinkies somos ruptura. Quebramos com as ideias naturalizadas de obtenção do prazer. Até mesmo contra adjetivações dadas a algumas partes do corpo, aos fluidos corporais, a determinados ambientes, à dor, aos sentidos, até mesmo à liberdade. Para nós, todo o corpo e grande parte da materialidade humana pode se tornar objeto de desejo e do erótico. Não é mais um sexo pautado em duas ações únicas — o entra e sai — e circunscrito ao lugar mais escondido dos humanos — o quarto. Nosso erotismo é canalizador do poder de explorarmos nossos desejos instintivos e “brutais”. Brutais àqueles que não conseguem conceber o sexo para além do “normal”. Entretanto, como e onde fortalecer essas relações de modo a torná-las o novo normal, rompendo com a cotidianidade moralista? De modo a entendermos a perfeição existente, tal qual FKA Twigs nos arrebata a refletir?
“You're perfect, baby
My perfect stranger
You're beautiful, you're worth it
You're the best, and you deserve it (ah)
You're a stranger, so you're perfect
I love the danger
You're the perfect stranger”
— FKA Twigs em Perfect Sranger
São Paulo é uma cidade cujas dinâmicas morais são totalmente integradas aos conflitos de escala federal e até mesmo global. O fato da enorme concentração populacional neste espaço a torna um exímio palco para práticas insurgentes, seja qual for sua natureza. Tais conflitos e insurgências adquirem características espaciais. A exemplo das práticas sociais existentes pela existência da forma e conteúdo da Galeria do Rock; as inquietações morais de grupos de skinheads no ABC Paulista; a forte presença de casas noturnas na Rua Augusta, marcando-a como uma região hedonista da cidade. Todos esses grupos e suas respectivas fissuras sociais, vivem a cidade através das relações construídas por suas identidades culturais. Estabelecem-se então, outras verdades, outra ideia do que é normal, abraçando e acolhendo aqueles que no cotidiano paulistano são julgados, estereotipados e/ou invisibilizados.
É nesse sentido que a festa Brutus opera na capital paulista. Durante as realizações, os participantes sentem-se à vontade em explorar seus fetiches. Certamente, pessoas externas a esses afetos julgariam ultrajante e nojenta a presença de um homem ajoelhado com a boca aberta esperando pela urina de outros homens interagir com seus tecidos bucais. Muitos não veriam sentido, muitos veriam patologias. Não lá. Há a construção do fetiche como normalidade. Ocorre a fissura com os brutais sentidos dados ao fetiche pela sociedade baunilha. Cria-se portanto, outras relações de poder, outros discursos e consequentemente, saberes.
A Brutus acaba por se tornar um relevante espaço para socialização interpessoal dos participantes. Mas também, é possível observar a interação entre variados nichos da cultura fetichista. Os Leathermans e leatherboys, Dominadores, Mestres, Daddies, sons, submissos, escravos, pigs, Smokers, Sádicos, masoquistas, castos, podólatras, sniffers, ass players, puppies Alphas à ômegas, piercings, ursos, barbies, lontras e twinks, ficam em constante entrelace de afetos. Nossos eus estão em liberdade de expressar os desejos mais “imundos” e “impuros”. O normal passa a ser o anormal e imoral. Embarcados na filosofia do SSC (São, Seguro e Consensual), nossos corpos estão colocados sobre o palco do erótico, e o grande e real ultraje é sair sem ter tido o prazer do orgasmo. E não necessariamente por meio da explosão do líquido prostático, mas sobretudo pelo louvor da inexistência de punições em exercer nosso eu, despidos de violências morais, tampouco de roupas. Dessa forma, abre-se um espaço seguro para dialogar sobre segurança das práticas, aconselhamentos, autoconfiança, amor próprio, sexo seguro, incômodos e possibilidades políticas.
Sendo possível, ao menos por uma madrugada do mês aproximarmos do super-homem nietzscheano na aceitação de nossas pulsões, de nossos desejos e em ruptura das valorizações que desprezam o corpo e suas potencialidades, que a cotidianidade busca deturpar e impulsionar. Afinal, para o sistema somos apenas força de trabalho, onde nosso íntimo não deveria ser celebrado e motivo de orgulho. Ao passo que a sociedade prega o aprisionamento, pelo pudor e a censura dos prazeres, a Brutus prega a liberdade.
A Brutus é a celebração do fetiche enquanto força motriz para a vida.